segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

On nous prend pour des cons

A expressão de alguns sentimentos muito primários, sobretudo os mais virulentos, nem sempre encontra a melhor forma. A manifestação da indignação está estreitamente dependente da nossa educação, isto é, condicionada para não ferir a susceptibilidade dos outros. Eu acho isto fantástico: por esta ou aquela razão, sentimo-nos enganados, roubados, violentados, e a expressão da nossa indignação não deve ferir a susceptibilidade dos outros, sobretudo a do chico esperto que nos incomodou! Se houver melhor definição para brandos costumes, escrevam‑me, por favor.

Por outras palavras, a nossa reacção a uma acção que nos prejudica, não deve/pode estar à altura do referido acto; a nossa indignação não deve/pode extravazar os limites da boa educação e da decência, vide dos bons-costumes: não se deve/pode chamar ladrão a quem nos mete a mão no bolso; mentiroso, a quem nos afronta despudoradamente com factos manipulados; vigarista, a quem pretende alterar o sentido da nossa conversa/atitude... e assim por diante. Mas devo confessar que tenho a maior admiração por certos artistas que conseguem imputar-nos o ónus das próprias malfeitorias. A forma mais corrente de o fazerem é isolarem um facto que mais não fez do que provocar a saturação de atitudes repetidas, passando uma esponja sobre o passado, como se ele não existisse, como se ele não tivesse algum peso específico, e reduzindo o pomo da discórdia a um incidentezinho sem importância. É um facto que isto funciona para plateias desprevenidas. Lembro-me do proprietário de uma tabacaria onde costumava comprar cigarros, só porque era a mais próxima de casa, que, mais vezes do que seria razoável, não conseguia completar o troco: "desculpe, fico a dever-lhe cinco tostõezinhos". O que nos ficam a dever é sempre expresso com diminuitivo. Um dia, em que eu não devia estar no melhor dos humores, o homem quis ficar a dever-me um escudo. Respondi‑lhe que, com tantos tostões que ele já me devia, talvez fosse a minha vez de ficar a dever-lhe os cigarros. O que é que eu fui dizer!!! "Olhó pinderico! A discutir por um escudito! Onde é que já se viu!". Isto, em voz suficientemente alta para despertar a atenção de alguns amigos que conversavam à porta da loja. Evidentemente, eu não tinha uma declaração de dívida por todos os tostões que ele me sonegava nos trocos, portanto, a minha pretensão nunca procederia em tribunal. Perante um júri, ele teria várias testemunhas de que eu tinha feito um escândalo por uns trocos a menos, e, como acontece nos aviões, até me poderia tornar agressivo, vide perigoso, o que é um pretexto para tudo e mais alguma coisa, até para levar uns sopapos ou ser detido preventivamente até me passar a raivinha, e eu ficaria, na melhor das hipóteses, com a minha cara de parvo. É para isto que servem os brandos costumes: para que os chicos espertos se aproveitem da (boa?) educação, da timidez e da insegurança dos outros:

on nous prend pour des cons!

Não sei explicar muito bem porquê, mas "querem comer-nos por parvos" não tem a mesma profundidade, a mesma virulência; parece mais sofismado; e é, parece-me, menos "injurioso". É, portanto, mais "brando". E é isso que esperam de nós: que sejamos mais brandos! A ditadura queria que fossemos brandos, que não exprimíssemos virulentamente a nossa indignação; isto é, nada de manifestações de rua a clamar slogans de protesto; nada de clamar contra as iniquidades do regime porque, quem reclama, ou é mal-criado, ou é comunista. Aos mal-criados, dá-se uns tabefes; os comunistas, trancafiam-se para não poluirem o bom ambiente. Dizer que sim sempre foi muito mais fácil do que dizer que não.

Dizer que não é muito complicado. Melhor, dizer que não tornou-se extremamente complicado.

Sempre achei que devia haver uma boa razão para não se ter feito uma revolução cívica da mentalidade dos portugueses. Com o fim da ditadura, houve todas as oportunidades para explicar às pessoas quais os seus direitos e quais os seus deveres. Essa campanha nunca foi feita. Havia uma imensa ganga de falsos critérios a povoar a mentalidade da maior parte dos portugueses. Um deles, era "comer e calar". Hoje, dá muito jeito. Não pretendo comparar coisas que não podem, nem devem ser comparadas: hoje, não impera a ditadura do silêncio, da manipulação dos factos, do medo de ficar sem emprego... Não? Bem, deixem-me por a coisa doutra maneira: hoje, ninguém vai preso por dizer mal do governo. Até porque toda a gente diz. Do silêncio passou-se à cacofonia, e o que se diz perdeu muito peso específico. As vozes da contradição não chegam ao céu. Por isso é que há uma comunicação mediada por profissionais: só os "técnicos" da política, da economia, da forma de dar as notícias, etc, é que têm espaço e tempo nos meios de comunicação social para chegar a todos os outros. São os especialistas. E é a opinião deles que "deve" influenciar a nossa forma de ver as coisas. Uniformizar. E quando uma opinião está uniformizada, bem podemos clamar do alto das torres sineiras que, entre outras coisas, o rei vai nu, que (quase) ninguém nos dispensará a menor atenção. E se dispensarem, é para chamarem a polícia.

Nesta conjuntura, não é difícil comerem-nos por parvos.

Toda a gente anda a tiritar, os gelos do Polo estão a consolidar-se, a temperatura do planeta pouco aumentou nos últimos 150 anos, mas parece que o aquecimento global vai dar cabo da gente: os combustíveis fósseis, cuja queima provoca efeito de estufa, não poderão mais ser queimados; vamos ter de migrar para combustíveis mais sofisticados, portanto, mais caros; as classes médias e baixas vão ter de apertar ainda mais o cinto; os países em vias de desenvolvimento não se poderão industrializar e ficarão cada vez mais devedores das grandes potências, em termos de energia e de produtos manufacturados.

E anda tudo acagaçado: com o fim do mundo, com pandemias de gripe, com a falta de liquidez... E quem anda acagaçado, dificilmente tem estamina para mandar vir. Nem para perguntar por que carga de água é que o metano, que provoca muito mais efeito de estufa do que a queima dos combustíveis fósseis, não é proscrito também, nem sequer é mencionado. É que o metano é produzido pelos peidos dos animais de criação que, depois, consumimos na forma de bife. Cortem-nos a carne e tereis uma revolução entre mãos, deve ser o que eles pensam.

On nous prend, vraiment, pour des cons.

Posto assim, até parece o estribilho de uma canção de Georges Brassens. Os franceses têm outra forma de reagir a certas contrariedades. Isto, traduzido à letra, seria “inaceitável” em português. Se chamarmos filho da puta a um meliante que acabou de nos sacanear, perdemos a razão pela forma como protestamos. Chamar os bois pelos nomes não é uma arte portuguesa. Se nos excedermos na nossa reacção, revertemos o ónus da acção que nos prejudicou. Em português, a “forma” condiciona os factos. Uma reacção branda pede uma resposta branda. Isto é, uma reacção “educada” pede desculpas. A coisa fica por ali, e a gente limpa-se às desculpas. A honra está salva. E os brandos costumes, também. Não há ninguém com mais desculpas na ponta dos lábios do que os chicos espertos. É uma moeda de troca muito barata.

3 comentários:

Mãe Galinha disse...

Não sabia que blogavas.... Mais um para juntar a dois que vou lendo .Tu sabes quem os escreve.Guardo a leitura do texto para mais tarde é hora de ir para o meu "escritório"(=cozinha).
Bjs e boa sorte.
Rita

magda disse...

Fiquei até ao fim à espera de te ouvir dar uns berros e palavrões.
Brandos costumes a que já aderiste?

ZPedro disse...

Não havia razões para insultar os visitantes. Palavrões aliviam a vesícula e enchem a boca. Escritos, não têm o mesmo peso.