sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Um restaurante sem clientes

Um blog sem comentários é como um restaurante sem clientes. Quem é que lá se quer sentar sozinho? Se eu não tivesse metido um contador de visitas nesta página, eu teria a sensação de aqui entrar num deserto. Ou de viajar para uma estrela morta há milhões de anos, mas cuja luz ainda está a chegar à terra. Eu sei que carrego a maior parte da culpa, ao não cometer aqui com regularidade. Tenho obrigação de sabê-lo. Mas é assim que se fazem as espirais: não tenho feedback ao que aqui ponho, menos vontade tenho de cá voltar, os leitores esquecem, mesmo os mais "fiéis", e eu pergunto "para quê?". Um escritor sempre tem a publicidade do lançamento do livro, mesmo que publique só em ano de olimpíadas. Mas, se escreve, é porque tem, pelo menos, a sensação de que vai interessar alguém. De preferência, alguéns. E tem filtros para o saber: editores que aceitam partilhar a responsabilidade, leitores incondicionais, que também podem desincentivar e poupar a humilhação. Lançar garrafas com mensagens ao mar, é uma imagem romântica. Mas, para além da analogia, escrever para não ser lido, deve ser das coisas mais frustrantes que eu possa imaginar. Como fazer um filme e ninguém o querer ver, ou compôr música que ninguém quer editar.

O que aqui deixo é o que me parece interessante, polémico, engraçado. Só por dinheiro é que escrevo o que não me interessa. E mesmo assim, não tarda que comece a achar algum interesse. É como as cerejas. E, se algumas das minhas afirmações podem ser polémicas, isto é, a contra-corrente da ideologia dominante, eu trabalho bastante para aduzir argumentos que expliquem a postura. Alguns dos textos que por aqui vou deixando, deram muito trabalho a pesquisar, a estruturar, a arredondar. Alguns não ficam no tinteiro porque há muito que me deixei de caligrafias, mas dormem na pasta dos meus documentos, porque, muitas vezes, eu acho que perderam oportunidade, ou que não cheguei ao ponto a que queria chegar. Isto não seria impeditivo se eu tivesse a certeza de que os meus leitores (hum!) entendessem a imperfeição das coisas e estivessem disponíveis para participar. Muitas vezes, acho que não estão. Por falta de tempo, por preguiça, pela cultura de café que definitivamente se perdeu. Não sendo por isso que perco a vontade, na ausência de resposta, eu sei que também é por isso.

Já me disseram que eu vou muito longe nas questões, o que pode dar a impressão de que não deixo margem para "discussão". Não concordo: eu acho que, independentemente da forma, ou do conteúdo, há sempre espaço para rebater, para acrescentar um ponto e relançar a coisa. Se eu escrevo "mata", fico à espera que alguém responda "esfola!". O facto de eu não alimentar o mito do aquecimento global, dos pastéis de Belém, da bondade intrínseca das pessoas, do amor filial, da infalibilidade da autoridade, não deveria fazer deste blog um local a evitar. 

A maior parte dos blogs serve para o autor se confessar, protestar, achincalhar, alimentar uma personagem. Para além do desejo de partilhar conhecimento, e "dar a ver". Mas em (quase) todos eles se aprende alguma coisa: basta haver curiosidade. E a estrutura enciclopédica da internet proporciona as viagens mais fabulosas que se poderiam imaginar. Algumas vezes deparo com questões que nunca me tinham passado pela cabeça. Dali, vou à procura de informação que complemente ou rebata o que acabei de ler. Por vezes, um simples "nunca tinha pensado nisso" é muito gratificante. Muita gente gosta de ser surpreendida, felizmente.

Não sei há quantas entradas é que eu deixei de surpreender os visitantes (hum!) desta página. Ou de lhes dar vontade de voltar. Eu não quero acreditar que as pessoas estejam tão agarradas à actualidade de um blog, que se substancia quase unicamente na data da publicação, que não encontrem curiosidade de navegarem pelos outros posts cujos links se podem encontrar na coluna à direita, nesta página. Basta um clique. Mas receio que isso possa ser verdade. Também receio que muita gente não "consiga" chegar ao fim de um texto correspondendo a 3 páginas A4. É verdade que os blogs mais frequentados são os que publicam mensagens curtas, um poema, uma foto, dois parágrafos, uma boca. É uma forma de estar. Não é a minha, porque acredito que há outros espaços para esse tipo de comunicação. Nomeadamente, as redes sociais. Mas aceito que isso possa ser mais um erro meu. Assim como continuar a achar que comer é  (também) um acto eminentemente social, e não me apanham sozinho, à mesa de  um restaurante.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Foi por bem

No fim de uma novela, o mínimo que eu posso esperar, é que se esclareçam todos os mistérios que me foram servidos ao longo de uns milhares de episódios diários. Chama-se a isso, o "desatar dos nós". E tem de acontecer num romance, num filme, numa anedota, numa notícia. Se não acontecer, o espectador/leitor vai dar por muito mal empregue a disponibilidade e a atenção dispensadas, o tempo gasto, e a credulidade suspensa, com o objectivo de ser surpreendido, entretido, e de aprender alguma coisa. Na vida real, também. Eu quero saber porque é que o mau é mau, porque é que fez o que fez às vítimas, que proveitos daí tirou, como é que foi descoberto (investigação) e desmascarado, e como é que é castigado. 

Disse, e repito, que só aqui trato de espectáculo. Seja ele qual for. E seja qual for, também, o protagonista que se exponha. Neste caso, é o da justiça (onde incluo tribunais, e seus agentes, assim como polícias e legisladores) já que ela se expôs ao ridículo de uma péssima novela, enredo (plot) ruim, narrativa incompetente e com final altamente duvidoso. E ocupo-me disto porque acho que a justiça é um protagonista fundamental da democracia. E, como à mulher de César, não lhe basta parecer séria. 

Neste enredo (plot), em que o protagonista é o próprio autor e narrador (com uma grande ajuda, é certo, de toda a comunicação social, mais do diz que diz, e os recados de outras personagens da estória - assim escrito para não se confundir com qualquer memória colectiva), as causas têm de produzir consequências, e a moral da comunidade tem de sair reforçada. Ou abalada por transformações revolucionárias. Estas são as regras. É isto que o público espera e precisa. 

O espectáculo da justiça não deveria confundir-se com um espectáculo de circo, a César o que é de César (outra vez?), portanto há coisas absolutamente proibidas, como prestidigitação, malabarismo, contorcionismo (para o que é fundamental uma coluna vertebral muito flexível), passes de mágica e funambulismo. Mas também a "mão de Deus" (já que isto também não é futebol), mais conhecida como "deus ex-machina". Mais os acasos e as coincidências. 

Muito menos, as crenças. 

O narrador até pode reter alguma informação para criar suspense. Mas no fim, vejam-se os romances do Poe, ou os filmes do Hitchcok, tudo tem de ser explicado. 

Ou fomos enganados. 

Saber que os acusados foram condenados até pode servir de catarse às vítimas. Dou isso de barato. Mas não passa de um enredo paralelo (sub-plot) e marginal. A isso, eu chamo espírito de vingança, e ficou bem explícito nos comentários de Catalina Pestana, à saída da leitura da "sentença": "Para nós (ela e mais quem? A instituição Casa Pia? As vítimas?), o caso termina hoje e aqui". Como quem diz (assim o interpreto eu), "já temos o que queríamos". 

Isto não tem nada a ver com justiça. 

A justiça (com ou sem maiúscula) só se justifica nos resultados que produz em prol da comunidade. O seu espectáculo tem de cumprir certos protocolos, e não se compadece com finais apressados e incompletos, só para cumprir um calendário: o dia da leitura da "sentença" coincidiu com o aniversário da primeira queixa relativa ao caso Casa Pia (em 2001) e que o desencadeou. Este caso não se pode cingir a uma efeméride. Compreendia que assim fosse se a justiça estivese de conluio com a astrologia, por exemplo. Mas seria um expediente narrativo manhoso: uma maquilhagem para desviar atenções.

Do que sabemos, até agora, a "satisfação" das vítimas foi o único objectivo atingido, após milhões de euros dos contribuintes (mal) gastos numa montanha que pariu, afinal, um rato. Dois anos para chegar a conclusões daquelas? Pior que a construção de uma auto-estrada, ou de um Centro Cultural de Belém. Os autores só podem ser profundamente preguiçosos e incompetentes, já que o suspense não produziu qualquer surpresa. E não me venham com a treta da "pobreza" da administração da justiça (vulgo tribunais): os emolumentos que pagamos porque sim, e por dá cá aquela palha, devem dar para muitas fotocopiadoras, e para pagar horas extraordinárias (se forem necessárias) a muitos "operadores e técnicos de reprodução" (de documentos, claro). 

E não se pode remeter as conclusões de uma história destas para as sequelas (Casa Pia 2, Casa Pia 3, e seguintes). Ou pode? Também pensei nessa possibilidade (é que não seria caso virgem: a quantidade de coisas - compromissos comerciais, promessas eleitorais - adiadas para próximas núpcias e legislaturas, é o pão nossa da nossa desdita). A ler o desfecho anunciado à luz das técnicas da narrativa ficcional, eu teria tendência a pensar que este não é o final imaginado, aqui só termina o segundo acto, e que o que foi feito, foi feito de propósito (mal) para ser (reviravolta dramática) corrigido na instância seguinte: os desembargadores da Relação vão, de qualquer maneira, anular esta decisão da 8ª Vara (por incompetente). Mas a justiça já terá "sido servida" às vítimas (3 de setembro de 2010), e justiça "será servida" (de qualquer forma) aos arguidos (formalmente mal) condenados, na Relação, num futuro mais ou menos próximo. Para mais, e não para menos, como já nos habituaram. 

Apostava singelo contra dobrado. 

E não faltarão umas almas caridosas a justificar: "Foi por bem", como aquele rei (não me apetece ir googlar para saber qual) apanhado com a boca na botija, no engate descarado de uma aia da raínha (vide Sala das Pegas, do Palácio da Vila, em Sintra). 

Também apostava que todos os intervenientes estão conscientes disto. Mas o espectáculo exige que se agitem, que se façam ouvir, que o conflito tente chegar a um clímax. É o momento próprio, no fecho do segundo acto, transição para o terceiro. E quem é que fica bem em todos estes cenários? A justiça, claro! Mas não porque deu um espectáculo credível, de instituição confiável, para todos nós. E sim porque construiu, à nossa custa, uma imagem que só a beneficia a ela, onde mostra que comete erros, mas também os corrige. Sem benefício colectivo. Estilo burocracia, que se sustenta a si própria. 

E o pior é que muitos espectadores (os fanáticos do circo romano e indefectíveis dos autos da fé públicos) nem se dão conta do quanto foram, e continuam a ser, intoxicados e hipnotizados para engolirem um desfecho destes. Dos outros, se fosse num teatro, o mais certo era levarem (os autores e actores) com apupos e mais armas de arremesso que aqueles apanhassem à mão. E não me refiro só aos protagonistas da justiça. Incluo neste elenco, toda a comunicação social, e mais intérpretes do poder instituído.

Já não bastam os governos, as empresas públicas, o comércio em geral, o Tesouro, as televisões, a tratarem-nos como menores? De idade e mentalidade? Não esqueçamos que os tribunais, palco da justiça, são órgãos de soberania. Mas que não os elegemos.

Pobre democracia! Triste espectáculo!

terça-feira, 27 de julho de 2010

Silly Season



O céu está azul, sem uma nuvem no horizonte. A brisa marítima leva a poluição, e ameniza qualquer veleidade de canícula. O mar rebenta (rebenta?) na areia, só ali onde se molham os artelhos. A agulha do barómetro nem treme, em bom tempo fixo. 
Vamos falar de quê? 

Se alguma coisa houvesse para aprender com o equilíbrio das temperaturas interna e externa do corpo, com o subtil enchimento de uma ligeira depressão atmosférica, com um ar desprovido de monóxidos vários, escritores e cineastas não se dariam ao trabalho de inventar enredos cabeludos, motivações estrambólicas, conflitos mortais. Ficariam, aliás, sem trabalho.

Não se situa uma cena de filme sob um céu de anil, a não ser na imensidão ondulante das dunas do deserto, nos canais secos de Los Angeles, ou na catinga da seca nordestina. O sol tem de ser abrasador, o calor tem de ser sufocante, o vento tem de trazer areia, o fumo dos incêndios de verão, o trovejar das ondas descontroladas, a rolar, toda a noite, nas rochas ocas das furnas. Ou o cheiro nauseabundo da laguna. Sem isso não há drama. 

Até quando batem leve, levemente, pois se há pouco, há poucochinho, nem uma agulha bulia na quieta melancolia dos pinheiros do caminho, se não é chuva, nem é gente, é para se ficar preocupado, certamente. Sem esta tensão (suspense) de entrada, quem ligava ao Augusto Gil?

Sem drama não há história, notícia, ou conversa. Não se gasta tempo, e dinheiro, numa cena em que não acontece nada. Gente feliz não existe na ficção, ou na comunicação social, em geral, a não ser para provocar inveja. Aí, sim: já temos drama!

Falamos de quê?

terça-feira, 20 de julho de 2010

Allez, allez!

102º Fahrenheit. O papel queima a 451, a clara do ovo frita a 153, e a gema a 172, o que torna possível estrelar um ovo em papel, antes deste arder. Pelo que sinto, não é preciso tanto para fritar mioleira.

Nestes dias de canícula, além de uma geladinha, de vez em quando, o que mais falta são T.shirts de algodão fino para empapar a transpiração. 3 por 5 euros. Mas, por toda a Beira Alta, parece que a única roupa que se consegue comprar é a de cerimónia: para noivas, noivos, padrinhos, damas de honor, pais da noiva... É um desafio à lógica: colarinhos apertados, saias a arrastar pelo chão, casacas de abas de grilo. Ah, e coletes. A indústria do casório não vai de férias, no verão. Quem vem de férias, são os emigrantes. E é por isso que é agora que se juntam as courelas, e resolvem as alianças de família, quando estas se reunem, uma vez por ano.

As ruas abarrotam de Renaults, Peugeots e Citroens de matrículas francesas, suíças e alemãs. Onde houver um espaço, nem que seja dentro das muralhas do castelo, montam-se as tendas para os copos de água, em sessões contínuas. O estrado para a música é sempre o mesmo: por aqui desfilam todos os aspirantes a Quim Barreiros, porque o som preferido é o do bacalhau com alho, espécie de receita regional para a boa disposição.

A gente vai entrando, por entre o pessoal em delírio, a despedir-se do casalinho. Salada de orelha, azeitonas, pão de centeio, pastéis de bacalhau já frios... O tintol é carrascão genuíno, com aroma indisfarçável a bagaço. 
Por entre as lágrimas que vai limpando com as costas da mão, a megera não se deixa enganar pelos nossos calções Columbia e as sapatilhas poeirentas. As T.shirts também já estiveram mais frescas, logo de manhã.
Vous êtes des amis à Pascal? Responde-se "hum, hum" com um ligeiro maneio de cabeça, que é sinal de assentimento universal. Até porque o pastel de bacalhau ainda enrola na boca.
Ó Manel, estes são lá de Aubervilliers. Allez, allez, traz o Champagne. O verdadeiro!
Partindo do princípio que Pascal é o noivo que acabou de se evadir deste carnaval, com ar de gringos e um francês impec, já somos amigos de infância. Chega o Taittinger, gelado, e mais dois pratos de cozido, ainda quente. 
Se os restos hão-de ir para os porcos...

terça-feira, 29 de junho de 2010

Vida de artista

Há profissões que mais vale disfarçar, de tal maneira vivem (mal) no imaginário das pessoas. Um (outrora) afamado publicitário francês, de seu nome Jacques Séguéla, chegou a escrever um livro que intitulou "Não digam à minha mãe que trabalho na publicidade, ela julga que toco piano num bordel". O livro não vem ao caso, e do Séguela, eu devo ser uma das três pessoas que se lembram dele, incluindo a mãe. É claro que há muitas "classes" de artistas, e hoje, até um jogador de futebol pode ostentar com orgulho a profissão, desde que jogue na primeira divisão, participe em competições europeias ou guie um Ferrari. Quando deixa de jogar, que é um acontecimento corrente ainda dentro dos prazos de validade para muitos artistas, é que a porca torce o rabo: "ex-futebolista" não é ocupação para ninguém! Ou será só para alguns.

Em regra geral, um artista é um artesão multi-disciplinar, o que torna a etiqueta ainda mais difícil. Um violinista que componha, mesmo depois de ser "executado" em público, ou editado em CD, vai continuar a confessar-se violinista, para facilitar as coisas. Um instumentista, em princípio, para o ser, está integrado numa orquestra, está obrigado a horários colectivos, recebe um estipêndio (mais o menos) regular. Um violinista sem orquestra, ou é uma vedeta internacional, ou é só mais um artista. Tal e qual como o futebolista.

Venho de uma linhagem de artistas. O meu avô, casapiano, entrou para o Real Conservatório de Música aos 13 anos, e acabou a tocar trombone na banda da Guarda Municipal de Lisboa. Também pintava umas paisagens, mas isso era normal, antes da invenção da televisão. Quando faleceu, aos 46 anos, deixou viúva e quatro filhos ao deus-dará. O mais velho, o meu tio João, foi trabalhar, aos 16 anos, para sustentar aquilo tudo. Foi boxeur, e acabou como pianista em ambientes enfumados e ruidosos. Não propriamente como o Séguéla, mas não andava longe. O facto de ainda hoje se cantarem, e tocarem, algumas marchas de Lisboa que compôs em parceria com a minha tia Manuela, não lhe garantiu um fim de vida brilhante.
As minhas duas tias, Teresa e Júlia, foram cantoras da rádio (continuamos na era pré-televisão) e chegaram a ser vedetas em capas de revista. O meu pai era um excelente pianista e chegou a acompanhá-las. Ele foi o único que andou na universidade. Licenciou-se matemático, engenheiro geógrafo, e em física, mais propriamente, geofísica, e iniciou uma brilhante carreira científica que durou até a ditadura ter desbaratado (em 1948-1949) todos os grupos organizados de estudo e reflexão, ter obrigado ao desemprego, ao exílio, e até preso, nomes fundamentais da ciência portuguesa, seus companheiros das Gazetas de Matemática, e outros fundadores da Sociedade Portuguesa de Matemática (Zaluar Nunes, João de Freitas Branco, Bento de Jesus Caraça, entre outros). Foi ensinar. Pouco tempo depois, já nem no ensino oficial podia trabalhar. Valeu o Liceu Francês Charles Lepierre. Até ao fim. Mas, apesar de excelente pedagogo, e de persistir na memória de centenas de alunos dele, a sua grande paixão foi a pintura. Presente em inúmeras colecções particulares, e em alguns museus (CAM, Museu do Chiado, Abade de Baçal, etc), premiado em Bienais, bolseiro da Gulbenkian, dirigente anos e anos a fio, da Sociedade Nacional de Belas Artes, continuou, até ao fim (aos 47 anos) a ser professor: só é pintor num meio muito restrito. E eu entendo isto muito bem. Premiado várias vezes como o melhor realizador de filmes publicitários, com filmes premiados em festivais, e não só de publicidade, com um currículo longo (nos anos) de actividade no mundo genérico do espectáculo, enquanto dei (acessoriamente) aulas no curso de cinema da Universidade Moderna, quando me perguntavam o que eu fazia, respondia automaticamente: sou professor! O problema era se me perguntavam "de quê".

Mesmo no cinema, existem profissões confessáveis: director de fotografia, engenheiro de som, editor (cá, diz-se montador), electricista, decorador. Mas estou em crer que é só uma questão semântica: um director continua a ser um director, mesmo que não se saiba de quê; um engenheiro, idem! É como quando alguém se confessa médico: para a maior parte das pessoas é mais do que o suficiente. Se trata de crianças, de malucos, ou de cataratas, a questão é de somenos. Como um advogado. Ou o tal engenheiro.
Se alguém tem a coragem de se confessar pintor, o mais normal da vida é perguntarem-lhe do que é que vive, como é que sustenta a família.
Eu concordo que ser realizador de cinema, em Portugal, como na maior parte dos países do mundo, não é uma profissão estável. Nem chega a ser uma profissão. É mais um "hobby". Tal e qual como a pintura. Porque a remuneração é errática, porque a ocupação é mais do que precária. Acordemos que é artesanato. E realizador de sucesso é como futebolista: tem prazo.
Hawks e Ford recebiam ordenado dos estúdios para "dirigir" os filmes que lhes mandavam dirigir. Pegavam às 9 e saiam às 7, depois de meter na lata x cenas por dia, aquelas que a produção estimava necessárias para garantir o respeito do orçamento e dos seus (deles, produtores) lucros. A nova geração (Lucas, Coppola, Spielberg) são produtores, donos ou accionistas de estúdios. Mesmo que (alguns) vivam na montanha russa, só são realizadores de vez em quando.

Ser realizador E produtor, é uma esquizofrenia delirante: enquanto o produtor tudo faz para conter os custos dentro dos limites do orçamento, o realizador quer, exige, mais e mais, para garantir a glória da obra. Mesmo quando se trata de uma encomenda. É uma luta sem quartel. Ó vida difícil!

Tirando as encomendas fechadas, são raros os produtos audiovisuais que se pagam a si próprios. Necessitam de uma enorme panóplia de acessórios, merchandising, contratos leoninos de distribuição, etc. Um produto audiovisual é cada vez menos um produto comercial por si só: é mais um suporte publicitário, um veículo promocional, uma parte de campanha, uma montra de talentos, um catálogo de muitas coisas. E, por isso, o produtor é cada vez mais um funâmbulo, um malabarista, com mais bolas no ar do que as que consegue ter na mão. É um pedinte, um vendedor de sonhos. E é o realizador que lhe garante a concretização dos sonhos dos outros.

A indústria de conteúdos, da cultura, como se diz agora, representa qualquer coisa como 3 por cento do PIB europeu, e (sub-)emprega cerca de 5 milhões de pessoas. Mais do que a indústria automóvel. Mas ninguém tem vergonha de se confessar soldador na Auto-Europa. Mas são aqueles "artistas" que nos garantem a evasão, e a vivência de experiêncas que a nossa curta vida não nos permite viver. É um serviço social que abarca muitas áreas, da educação à saúde mental, essencialmente porque a arte questiona as fantasias. Devemos-lhes muito. E é por isso que fico piurso quando leio e ouço chamar parasitas, chulos, e outros mimos, aos que optaram por uma vida aos trancos, sempre difícil, que eu sei, para garantir os sonhos. Os deles, e os dos outros. Lembro-me, sempre, de Goebbels, ministro da propaganda de Hitler: “quando ouço a palavra cultura, saco logo da minha pistola”. Para mim, é fascismo primário. O poder receia o conhecimento e a cultura, porque são meios de libertação. E por isso, mesmo em sociedades ditas democráticas, tudo faz para controlar o financiamento da dita cultura.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Da utilidade das efemérides. E dos mitos!

No dia da morte de Saramago, "arrumaram-se" uma série de coisas que por aqui andavam, há uns dias, aos tralhos: foi o aniversário da morte de Cunhal, no dia de Sto.António, o dia de aniversário do meu pai, e, possivelmente, algumas outras recordações, que nos atristam e alegram, mas que não vêm aqui ao caso.
As efemérides existem porque existe comunicação social: nós (já) não temos memória para tanta coisa. E se servem para vender papel, têm, também, um (papel) importante na formação da memória colectiva.

Conheci Cunhal na gravação de um tempo de antena, numa campanha eleitoral de que já não me lembro. Quando digo que o conheci, quero dizer que travei conhecimento pessoal, entre quatro olhos (os meus e os dele), com intercâmbio oral de palavras e conceitos, porque eu sabia, há muito tempo, quem ele era: eu andava a fazer a 4ª classe quando ele fugiu de Peniche, mas essa recordação está bem viva na minha memória. Nesse tempo, não estávamos (in)formados pela televisão, e este tipo de factos eram veiculados por pessoas que nos mereciam o maior respeito e credibilidade: pai, irmão mais velho... Sem conhecer os pormenores, não duvido que essa fuga, certamente maquilhada, na minha imaginação, com os floreados românticos das leituras de Salgari, perdurou, durante a minha adolescência, como um ícone da liberdade, da resistência, da independência e da coragem. Assim se fazem os mitos.

Voltando ao tempo de antena "histórico", eu tinha sido informado que o camarada chegaria a tal hora ao estúdio, gravaria o que tinha a gravar para o programa, e sairia no menor prazo possível. Isto queria dizer que tudo deveria estar pronto para a gravação quando ele chegasse: o tempo do camarada estava minuciosa e rigorosamente contado. E assim aconteceu. No fim da gravação, fomos à "régie" visionar a coisa, e aí se deu o "conflito". Eu não estava preocupado com o que o camarada poderia ter dito, já que não me passaria pela cabeça que ele não soubesse o que tinha a dizer. O que me "preocupava" era a imagem do camarada. Eu trabalhava em publicidade, e essa preocupação era permanente. E, neste caso, primordial. Gelei quando vi que, apesar da preparação cuidada do cenário, da captação do som, e da luz, não tivera tempo de acertar alguns pormenores. A coisa tinha sido "despachada" sem ensaios nem repetições, e a luz, correctamente afinada para uma pessoa "normal", esbarrava na proeminente arcada supraciliar do Cunhal, e não lhe chegava aos olhos. Resultado: os olhos do camarada estavam encovados num buraco escuro, e mal se viam. Anunciei que teríamos de repetir. A reacção do camarada foi pronta: "Porquê? Eu disse alguma coisa errada?" Que não, expliquei-lhe. "Ah bom. Se é para ficar mais bonito, não vale a pena." E foi-se embora.

Fiquei piurso. E queixei-me ao Comité Central, mais concretamente à Informação e Propaganda: não punha em questão a autoridade do camarada em matéria de conteúdos, mas na imagem dele, quam mandava era eu! Não sei o que lhe disseram, mas no dia seguinte, o camarada veio sentar-se ao meu lado, à mesa do refeitório, e perguntou-me que camisa é que havia de vestir para o comício dessa tarde. É evidente que ele sabia muito bem que camisa é que ia vestir, mas este "pedido de desculpa" fechou o conflito, e abriu portas até aí fechadas a cadeado.

Nos dias que se seguiram, houve várias conversas em que nunca se falou de política, mas sim de cinema, de arte em geral. Era, no mínimo surpreendente que uma pessoa que eu julgava que vivia em estado de (quase) clausura (tanto no sentido figurado, como no real) tivesse visto (ao vivo) tanta coisa, e se tivesse debruçado sobre elas com tanta profundidade. Eram coisas que lhe davam prazer. Eu lembrava-me do meu pai a explicar-me, menino, o "Pedro e o Lobo", de Prokofiev, "A história do soldado", de Stravinsky, ou as manchas coloridas que compunha na tela sempre presente no cavalete. E falava-me de Braque, de Gauguin. Isto é, a história é sempre colectiva. Mas é na maneira de a vermos, e de a usarmos, de a exprimir, de nos apropriarmos dessa experiência, que nos tornamos singulares. Como Saramago a contar a história de Joana Carda, ou de Baltasar Mateus, o Sete-Sóis. Ele é dos 3, o que tinha as emoções e sentimentos mais próximos da boca. Ouvi-o, mais do que uma vez, no hotel Vitória, em entrevistas, a exprimi-los, por desagrado ou satisfação, com a preocupação visível do rigor, na escolha dos termos e da forma, sem receio de que alguma singularidade, sinal inequívoco de independência, pusesse qualquer lealdade em questão.

As pessoas transformam-se na comunicação. Um contador de histórias, um professor, um milongueiro, ganham vulto com a quantidade de pormenores úteis carreados para a conversa/texto. O conhecimento, a memória, a maneira de ligar os factos, a precisão dos termos, são factores de encantamento para o ouvinte, para o leitor. Acho que disto, ninguém tem dúvida. E não é só uma questão enciclopédica, nem semântica: o entusiasmo, o prazer do contador transmite-se de forma contagiante e envolve o discurso, que ganha uma carga fantástica (de fantasia).

Eu penso que ninguém adquire conhecimento só por curiosidade: o desejo de partilha está sempre presente. Porque é da partilha que se tiram, provavelmente, os maiores dividendos, como o tal "encantamento" do interlocutor/leitor pelo que é, evidentemente, singular. Este retorno é, talvez, o melhor prémio do curioso. Não será por acaso que uma das coisas com que Cunhal mais engalinhava (no âmbito da "nossa" colaboração), era a banalização do(s) seu(s) discursos(s) pela comunicação social, a chamada "cassete", que é, talvez, a invenção mais redutora de um discurso que possa haver: filme-se um candidato em campanha eleitoral nos seis comícios em que discursa durante o dia. Monte-se a mesma passagem da intervenção em cada um dos seis comícios, umas mais cansadas, roucas, ou titubeantes que outras, e aí temos a "cassete" a ser difundida para milhões de telespectadores. É merdoso, é propositado, é terrorista, porque visa concretamente anular o encantamento dos espectadores, por ser chato, por ser pateta, e, daí, destruir a imagem do protagonista. Mas é, muitas vezes, a paga que se recebe por uma atitude inteligente. E singular. E independente.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Arte e prestidigitação

Já aqui disse que não trato de política. Mas, o espectáculo dessa mesma política merece toda a minha atenção.

O espectáculo é uma noção vasta, que abarca actuações interpretativas, acções complicadas, narrativas fantásticas. O espectáculo transporta-nos para novos mundos, tanto reais, como especulativos, e é essencial para nos abrir os horizontes, para nos transmitir experiências alheias que dificilmente podemos viver. O espectáculo é a expressão da criatividade, da imaginação, do virtuosismo.

Na relação com o "cliente", espectador, ouvinte, leitor, o artista tem algumas obrigações. E a mais importante, a meu ver, é o cumprimento do contrato tácito que se estabelece neste tipo de troca: um filme (anunciado como) policial, não pode (não deve) vir a revelar-se uma comédia romântica; um romance da Isabel Allende não deve (não pode) parecer uma prosa do Paul Auster; quem vai ao circo, quer ver palhaços, acrobatas, leões e tigres; quem paga para assistir a um jogo do Benfica, quer vê-lo a vencer; quem vai ouvEr uma ópera ao S.Carlos, espera, pelo menos, uma interpretação tão boa quanto as que vê no canal Mezzo; ninguém vai a um restaurante japonês com vontade de mãozinha de vitela com grão. O incumprimento destas (e de muitas outras) obrigações, provoca desilusão e descrença. E é mau para todos, artistas e "clientes": quem assiste a uma encenação patética de teatro, enquanto se lembrar não se desloca a outra; quem ler um mau romance, não se precipita para a livraria para comprar outro (romance). A confiança do "cliente" levou muitos séculos de cultura a conquistar, e perde-se em meia hora de intervenção televisiva. Por exemplo.

Outra obrigação contratual tem a ver com o anúncio claro e inequívoco do mundo para onde o artista nos pretende transportar. Esse mundo tem de ser caracterizado para que o "cliente" se presdisponha a aceitá-lo, e assim, suspender momentaneamente a (sua, dele, cliente) credulidade. Isto é uma coisa que todos os paizinhos e mãezinhas bem sabem. Quase todas as histórias, que começam com "era uma vez", se passam num mundo distante com castelos, cavaleiros e princesas, ou no tempo em que os animais falavam, ou no tempo dos dinossauros, do qual, todos sabemos, não sobrou nenhum para contar como foi. Mas também pode ser num planeta distante, onde as condições de vida humana são inviáveis, e teremos de transmitir a NOSSA informação para um corpo indígena, para aí poder sobreviver, enquanto o nosso corpo permanece, vazio de energia, em qualquer arca congeladora. E nós (clientes), estamos prontos a aceitar todas estas realidades alteradas, desde que apresentadas de forma aceitável e plausível. Suspensão momentânea da credulidade. Durante hora e meia, papamos daquilo, no escurinho do cinema (Rita Lee).

Quando não há caracterização específica do mundo que estão para nos "vender", é tácito, e óbvio, de que é do NOSSO mundo que se trata. Os códigos de leitura são claros: estamos no mundo da interpretação da realidade em que vivemos: é a representação figurativa da natureza que nos rodeia (ar para respirar, os campos são verdes e o céu é azul), existe um deve e um haver, nem sempre equilibrado, os amigos são para (nos) apoiar, e os adversários são para levar. Branco é branco (Demis Roussos), preto é preto, os bandidos roubam, os polícias prendem-nos (a eles, bandidos). É por isso que, se o mundo não for este, temos de ser avisados, preparados, elucidados. Os mundos alternativos "têm" de ser anunciados, e, em muitos casos, basta o conhecimento do nome do artista para que uma das exigências do contrato esteja cumprida: a pintura de Picasso É do Picasso, os filmes do David Lynch SÃO do David Lynch, só lá vai quem quer, e sabendo que não é com os códigos universais que pode dialogar com aquele artista: vai ter de descobrir os códigos próprios, que, pelo seu (dele) lado, o artista incluiu na obra para esse fim.

Outra regra fundamental, é evitar qualquer sensação de estranheza ao espectador, ouvinte, leitor. Quando fez Blade Runner, Riddley Scott utilizou uma técnica a que, posteriormente, se chamou "retrofitting", para caracterizar o mundo do futuro em que decorre a história de Phillip Dick: utilizou o ambiente, cor, guarda-roupa dos filmes negros dos anos 40 e 50. É um mundo "conhecido", mas não "vivido" pela maior parte dos espectadores dos anos 80. Não causa, portanto estranheza. Isto, para chegar ao ponto de que é necessária uma grande ligação à NOSSA realidade, para impingir uma OUTRA realidade. Isto, também toda a gente sabe. Não é por acaso que o povo diz "com a verdade me enganas". Eu prefiro Orson Welles, outro grande prestidigitador, quando diz que é preciso incluir muita verdade numa grande mentira.

Mas, qual fada má, melga chata, pulga maldita, eis que um erro técnico na narrativa, uma interpretação deficiente, uma caracterização pobre, o relógio no pulso de um soldado de Alexandre, a expulsão do jogador vedeta, nos acorda daquela hipnose: NÃO DÁ PARA ACREDITAR! E acabou o espectáculo: faltam 20 minutos para o fim do jogo, e a equipe já não se aguenta nas canelas, quanto mais virar um resulado de 0 - 3! Ou está toda fechada na defesa, a defender o empate. É o NÃO espectáculo!

Quero eu dizer com isto que não basta uma boa interpretação para nos fazer acreditar num espectáculo: há muitos outros parâmetros, e a definição do mundo (daquele mundo) não é dos menos importantes. Se não, vejamos: o nosso primeiro ministro presenteou-nos com uma prestação televisiva merecedora do óscar para "male leading role". Eu não tenho dúvidas sobre isso. E também não tenho dúvidas que se pretendia que fosse um espectáculo: houve um primeiro acto em que os "adversários" se estudaram, luvas de pelica, sem interrupções, só sorrisos e palmadinhas nas costas, permitindo que cada um delimitasse o seu (dele) território. Mas também houve conflito, ou o espectáculo dele: tentativas, quase sempre tímidas, mas valendo-se do conhecimento que o telespectador tem da "agressividade" entrevistadora da Judite Sousa (faz parte da meta-realidade, como o alho, e o azeite, no bacalhau), para que o artista convidado fosse obrigado a ir por outro caminho. É outra regra da ficção (eu disse ficção?): quanto mais malvado for o antagonista, mais heróica será a tarefa do protagonista. Diria que todos os obstáculos, todos os empecilhos colocados na frente do primeiro, foram inúteis: ele deu cabo de todos. Aliás, outra coisa não seria de esperar. Quem monta um espectáculo, e não o controla, só pode ser incompetente. Realizador que se preze, não mete num filme cenas com que não concorda, ou que não contribuam para o entendimento da história. Um pintor só usa as cores que o façam vibrar; usar outras, seria ceder a modismos. E os exemplos são infinitos. Ulisses pode, assim, vencer os obstáculos com modéstia e alguma humildade. E, no terceiro acto, aquele onde se desatam os nós e põe os nomes aos bois, ele regressa a Ítaca, ao encontro de Penélope, como justo vencedor, referência moral da comunidade. THE END.

THE END, nada! O argumentista desta história meteu uma valente patada! Onde está a caracterização do mundo alternativo que o nosso primeiro nos quis vender? Não dei por nada. Eu pensava que ele nos estava a situar na NOSSA realidade. Afinal, e não mencionado, estávamos era num mundo que muda em 3 semanas, onde não há erros sistémicos de governação, onde o protagonista é surdo a críticas, e cego a sinais de alarme, onde se negoceiam, sequestram e chantageiam as dívidas soberanas dos estados europeus. Um mundo onde todos são iguais, mas uns são mais iguais do que os outros. Onde os bancos não são PMEs, nem grandes empresas, nem como o comum dos mortais, porque lhes perdoam uma fatia importante dos impostos. Onde se vão guardando trunfos na manga para poder negociá-los, em seu tempo, com os adversários, quiçá com o espectador, leitor, ouvinte. Este argumentista é um pantomineiro. À mulher de César não lhe basta parecer honesta. Por muito simpático que seja um vigarista (condição sine qua non), se o apanharmos, destempadamente, com a mão na caixa das esmolas, temos o direito, e o dever, de corrermos com ele à pedrada e ao pontapé!

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

A vida dos outros

Não me tinha passado pela cabeça aqui tratar de filmes ou de cinema, em geral. Tenho, dos filmes, uma visão muitas vezes rígida e tecnicista, o que incomoda os meus amigos. Seria, para mim, muito difícil escrever crítica, já que ando sempre à procura do filme ideal, e, na maior parte das vezes, não o encontro. A fasquia está sempre colocada muito em cima.
E um filme pode ser "ideal" de muitas maneiras: ou porque a história está bem contada, ou porque o espectáculo montado me faz esquecer tudo o resto. Ou os dois, em conjunto.
Parto sempre para os filmes em estado de suspensão de credulidade, como é de regra: estou sempre pronto a aceitar o novo mundo que o realizador me apresenta, e, se ele me quiser convencer de que os animais falam, eu acredito. E vou acreditando enquanto não houver uma solução de facilidade, um truque manhoso, ou uma cedência a qualquer moda imposta pela indústria ou pelo comércio. A partir daí, a credulidade acabou. Vou contando os erros, estou mesmo à espera deles. E já não é de um espectáculo que se trata, mas de uma competição: sou, ou não sou mais esperto do que ele? Eu acho que esta, também é uma forma de gostar de cinema: a aprender com os erros dos outros.
O que me levou aqui a falar de cinema, foi ter começado a ver um filme chamado Nine. Digo começado, porque após os primeiros minutos parei de ver. Na minha distracção, não sabia que tinha sido feito um filme inspirado no musical da Broadway, por sua vez inspirado no 8 ½ de Fellini. Tudo o que sabia é que ia ver um filme com argumento de Anthony Minghella (O Paciente Inglês, Cold Mountain, Breaking and Entering), um realizador muito prometedor que morreu cedo demais.
Apesar de ser a cores, o filme abre com uma cena a preto e branco, e logo ali aparece 8 ½, não há nada escondido: Daniel Day-Lewis a fazer de Marcello Mastroianni, que faz de Fellini. Um actor inglês a falar a sua língua materna, com o sotaque do actor italiano, que fala inglês. A composição da imagem não deixa dúvidas, e o guarda-roupa é passado a papel químico. Nem poderia deixar de ser, já que 8 ½ ganhou o óscar de melhor guarda-roupa: um filme que conta a história de outro filme, teria de respeitar esse contexto historico.
8 ½ é o perfeito filme de ficção: ao retratar um mundo que existe na realidade, ele escapa dessa realidade e entra, por portas e travessas, naquela fuga de Guido atravé de Roma, a Roma das noites frenéticas e madrugadas vibrantes, numa nova realidade composta pelos sonhos e fantasmas de Guido. Os sonhos nunca chocam de frente com a realidade, mas são diferentes. E a fuga tem a ver com aquilo que a realidade espera de Guido, mas que ele duvida que lhe consiga dar. É, portanto, um filme eminentemente autobiográfico, em que Fellini se encena a si próprio no corpo e imagem de Marcello Mastroianni. E autobiográfico como um currículo, onde se enaltecem umas coisas, e se omitem outras: já estamos no domínio da ficção. É a construção de uma identidade que não existe na realidade. Somos aquilo que fazemos. E há quem diga que somos tão bons quanto a última coisa que fizemos. Mas podemos sempre dar a ver, aos outros, uma imagem diferente daquela que o espelho nos devolve.
E, sem desprimor para o filme Nine, que só verei depois (não faço a mínima ideia se presta ou não), eu parei, confuso, a pensar que direito (sem contexto jurídico) é que um qualquer realizador, escritor, compositor, usa as identidades, sonhos e fantasmas de outro qualquer? É que não se trata de uma variação sobre um tema de Fellini. Uma variação pega num tema, numa frase, numa melodia, e desenvolve-a, se o "variador" achar que tem alguma coisa a acrescentar àquela fonte de inspiração. Isto é velho como o mundo. Aqui, trata-se de uma coisa completamente diferente. 8 ½ poderia ser um monumento de pedra numa sala de museu. Podemos andar à volta dele, observar pormenores de mais perto, usar lupas, se for preciso, ver o que não tinhamos visto numa visita anterior, mas não lhe podemos acrescentar nada. Podemos pintá-lo, claro. Iluminá-lo de outra forma. Mas não lhe podemos colar um braço extra. Até podemos cortar qualquer coisa para o fazer caber em outros espaços. Mas isso já é uma amputação. Não é possível acrecentar, ou alterar seja o que for à visão que outro tem de si próprio, ou da sua própria vida. Os psicanalistas fazem-no, é verdade. Mas não cobram bilhetes.
Nine não pode ser uma revisitação de 8 ½, pois 8 ½ não é um local, nem uma época que possam ser frequentados. Então, é o quê? O que é que 8 ½ tem de imperfeito para que se sinta, hoje, vontade de o aperfeiçoar? E fica a pergunta da maior perplexidade: se 8 ½ é um produto vendável, porque não exibir o original, de vez em quando?

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

On nous prend pour des cons

A expressão de alguns sentimentos muito primários, sobretudo os mais virulentos, nem sempre encontra a melhor forma. A manifestação da indignação está estreitamente dependente da nossa educação, isto é, condicionada para não ferir a susceptibilidade dos outros. Eu acho isto fantástico: por esta ou aquela razão, sentimo-nos enganados, roubados, violentados, e a expressão da nossa indignação não deve ferir a susceptibilidade dos outros, sobretudo a do chico esperto que nos incomodou! Se houver melhor definição para brandos costumes, escrevam‑me, por favor.

Por outras palavras, a nossa reacção a uma acção que nos prejudica, não deve/pode estar à altura do referido acto; a nossa indignação não deve/pode extravazar os limites da boa educação e da decência, vide dos bons-costumes: não se deve/pode chamar ladrão a quem nos mete a mão no bolso; mentiroso, a quem nos afronta despudoradamente com factos manipulados; vigarista, a quem pretende alterar o sentido da nossa conversa/atitude... e assim por diante. Mas devo confessar que tenho a maior admiração por certos artistas que conseguem imputar-nos o ónus das próprias malfeitorias. A forma mais corrente de o fazerem é isolarem um facto que mais não fez do que provocar a saturação de atitudes repetidas, passando uma esponja sobre o passado, como se ele não existisse, como se ele não tivesse algum peso específico, e reduzindo o pomo da discórdia a um incidentezinho sem importância. É um facto que isto funciona para plateias desprevenidas. Lembro-me do proprietário de uma tabacaria onde costumava comprar cigarros, só porque era a mais próxima de casa, que, mais vezes do que seria razoável, não conseguia completar o troco: "desculpe, fico a dever-lhe cinco tostõezinhos". O que nos ficam a dever é sempre expresso com diminuitivo. Um dia, em que eu não devia estar no melhor dos humores, o homem quis ficar a dever-me um escudo. Respondi‑lhe que, com tantos tostões que ele já me devia, talvez fosse a minha vez de ficar a dever-lhe os cigarros. O que é que eu fui dizer!!! "Olhó pinderico! A discutir por um escudito! Onde é que já se viu!". Isto, em voz suficientemente alta para despertar a atenção de alguns amigos que conversavam à porta da loja. Evidentemente, eu não tinha uma declaração de dívida por todos os tostões que ele me sonegava nos trocos, portanto, a minha pretensão nunca procederia em tribunal. Perante um júri, ele teria várias testemunhas de que eu tinha feito um escândalo por uns trocos a menos, e, como acontece nos aviões, até me poderia tornar agressivo, vide perigoso, o que é um pretexto para tudo e mais alguma coisa, até para levar uns sopapos ou ser detido preventivamente até me passar a raivinha, e eu ficaria, na melhor das hipóteses, com a minha cara de parvo. É para isto que servem os brandos costumes: para que os chicos espertos se aproveitem da (boa?) educação, da timidez e da insegurança dos outros:

on nous prend pour des cons!

Não sei explicar muito bem porquê, mas "querem comer-nos por parvos" não tem a mesma profundidade, a mesma virulência; parece mais sofismado; e é, parece-me, menos "injurioso". É, portanto, mais "brando". E é isso que esperam de nós: que sejamos mais brandos! A ditadura queria que fossemos brandos, que não exprimíssemos virulentamente a nossa indignação; isto é, nada de manifestações de rua a clamar slogans de protesto; nada de clamar contra as iniquidades do regime porque, quem reclama, ou é mal-criado, ou é comunista. Aos mal-criados, dá-se uns tabefes; os comunistas, trancafiam-se para não poluirem o bom ambiente. Dizer que sim sempre foi muito mais fácil do que dizer que não.

Dizer que não é muito complicado. Melhor, dizer que não tornou-se extremamente complicado.

Sempre achei que devia haver uma boa razão para não se ter feito uma revolução cívica da mentalidade dos portugueses. Com o fim da ditadura, houve todas as oportunidades para explicar às pessoas quais os seus direitos e quais os seus deveres. Essa campanha nunca foi feita. Havia uma imensa ganga de falsos critérios a povoar a mentalidade da maior parte dos portugueses. Um deles, era "comer e calar". Hoje, dá muito jeito. Não pretendo comparar coisas que não podem, nem devem ser comparadas: hoje, não impera a ditadura do silêncio, da manipulação dos factos, do medo de ficar sem emprego... Não? Bem, deixem-me por a coisa doutra maneira: hoje, ninguém vai preso por dizer mal do governo. Até porque toda a gente diz. Do silêncio passou-se à cacofonia, e o que se diz perdeu muito peso específico. As vozes da contradição não chegam ao céu. Por isso é que há uma comunicação mediada por profissionais: só os "técnicos" da política, da economia, da forma de dar as notícias, etc, é que têm espaço e tempo nos meios de comunicação social para chegar a todos os outros. São os especialistas. E é a opinião deles que "deve" influenciar a nossa forma de ver as coisas. Uniformizar. E quando uma opinião está uniformizada, bem podemos clamar do alto das torres sineiras que, entre outras coisas, o rei vai nu, que (quase) ninguém nos dispensará a menor atenção. E se dispensarem, é para chamarem a polícia.

Nesta conjuntura, não é difícil comerem-nos por parvos.

Toda a gente anda a tiritar, os gelos do Polo estão a consolidar-se, a temperatura do planeta pouco aumentou nos últimos 150 anos, mas parece que o aquecimento global vai dar cabo da gente: os combustíveis fósseis, cuja queima provoca efeito de estufa, não poderão mais ser queimados; vamos ter de migrar para combustíveis mais sofisticados, portanto, mais caros; as classes médias e baixas vão ter de apertar ainda mais o cinto; os países em vias de desenvolvimento não se poderão industrializar e ficarão cada vez mais devedores das grandes potências, em termos de energia e de produtos manufacturados.

E anda tudo acagaçado: com o fim do mundo, com pandemias de gripe, com a falta de liquidez... E quem anda acagaçado, dificilmente tem estamina para mandar vir. Nem para perguntar por que carga de água é que o metano, que provoca muito mais efeito de estufa do que a queima dos combustíveis fósseis, não é proscrito também, nem sequer é mencionado. É que o metano é produzido pelos peidos dos animais de criação que, depois, consumimos na forma de bife. Cortem-nos a carne e tereis uma revolução entre mãos, deve ser o que eles pensam.

On nous prend, vraiment, pour des cons.

Posto assim, até parece o estribilho de uma canção de Georges Brassens. Os franceses têm outra forma de reagir a certas contrariedades. Isto, traduzido à letra, seria “inaceitável” em português. Se chamarmos filho da puta a um meliante que acabou de nos sacanear, perdemos a razão pela forma como protestamos. Chamar os bois pelos nomes não é uma arte portuguesa. Se nos excedermos na nossa reacção, revertemos o ónus da acção que nos prejudicou. Em português, a “forma” condiciona os factos. Uma reacção branda pede uma resposta branda. Isto é, uma reacção “educada” pede desculpas. A coisa fica por ali, e a gente limpa-se às desculpas. A honra está salva. E os brandos costumes, também. Não há ninguém com mais desculpas na ponta dos lábios do que os chicos espertos. É uma moeda de troca muito barata.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Os manuais da cegueira

É sabido que qualquer literatura ajuda a suprir uma necessidade num dado momento, ou num certo campo. E por literatura entendo tudo o que se elabore como texto a ser ouvido, lido, em letra de forma ou como sequência de imagens. Conselhos, também são literatura. Estamos, quase sempre, em busca de respostas, de conhecimento mais especializado divulgado por quem, por experiência própria, por capacidade em lidar com situações extremas, nos pode fazer participar em experiências que não poderemos viver. A vida é muito curta para podermos vivê-las todas. A nossa capacidade de associação pode, assim, valer-se de um romance, de um poema, de uma canção, de um filme, de uma conversa com um amigo ou com um profissional, para obter conhecimentos que de outro modo ficariam ignorados.

É sabido, também, que andamos sempre em busca de protecção. E a verdade universal parece proteger-nos contra a insegurança, a perplexidade, a agressividade da sociedade liberal, já que milhões de pessoas juntas não podem estar enganadas. Só que esta verdade consensual e colectiva não é, forçosamente, a verdade de que necessitamos. É a verdade do rebanho. E o rebanho oferece protecção. Daí, o êxito das religiões.

Mas, hoje, vivemos numa época de enfraquecimento das religiões. Depois de termos sido condicionados massivamente a procurar a felicidade obedecendo a preceitos religiosos, hoje estamos perante a oferta da libertação dos padrões como forma de lá chegar. O enfraquecimento deve-se, muitas vezes, ao facto dos mandamentos morais ameaçarem, em vez de consolarem, condenarem, em vez de entenderem, elaborarem uma consciência de culpabilização em que se moldam grande parte dos princípios que deveriam ser representativos da liberdade. É este paradoxo que a chamada "indústria" de auto-ajuda explora.
Escrevi "indústria" porque acho que é de "consumo" que estou a tratar: existe uma necessidade, a do indivíduo lançado às feras, perplexo perante a complexidade dos problemas que o afectam, sem resposta para as contrariedades, e, em vez de o "ensinarem a pescar", dão-lhe (ou vendem-lhe, mais precisamente) o peixe. Dá-se-lhe aquilo que ele pode comprar.

É assim que funciona uma sociedade ultra-liberal: a publicidade diz-nos exactamente do que é que precisamos, a indústria coloca-o no mercado, o indivíduo consome, gera-se lucro, e toda a gente fica satisfeita porque o mercado funciona. Não se coloca no mercado o que as pessoas não querem comprar; não se coloca no mercado o que é complexo, difícil de entender: para isso teria de se dar conhecimento e informação às pessoas; não se coloca no mercado o que é saudável, teria custos incomportáveis. Coloca-se no mercado o que é vendável. Ensinar as pessoas a pescar não dá lucro: quem pesca, já não compra peixe.

Mas as pessoas não são todas abúlicas. E, por isso, não se consegue vender aquilo em que as pessoas, muito simplesmente, não acreditem. Já viram um vigarista antipático a convencer-vos de uma verdade a que nos oponhamos? Claro que não. Vigarista que se preze tem de ser simpático. E se não conseguir convencer-nos, dá-nos a volta com as verdades que queremos ouvir. É assim na televisão comercial, é assim na publicidade, é assim na literatura dita de auto-ajuda, na comunicação social em geral. Porque se dirije ao maior número possível de "clientes", tem de estar ao nível cultural e emocional da maior parte da massa consumidora: dos 8 aos 88 anos. Entenderam, claro. Não quero dizer que se dirije a um intelecto de oito anos, com o pretexto gritante de que não estamos todos ao mesmo nível de evolução, nivelando por baixo, porque estaria a agredir grande parte dos meus leitores. Concepções contrárias à da maioria são geralmente vistas como uma agressão. E quem se sente agredido, muda-se. Para outro canal, para outro blog, não compra o meu produto, fecha-se nas suas defesas, dispara rajadas de Kalashnikov. Quando adoptamos posturas críticas que contrariam um sentimento comum, corremos o risco de sermos vistos como arrogantes, pedantes, invejosos, desmancha-prazeres... "do contra", mensageiros da desgraça, bruxos!
Hoje, no âmbito do que "queremos ler, ouvir", assiste-se à proliferação de "conselhos" que nos permitem sermos condescendentes connosco, marimbando nas recriminações, ao permitirem que novas formas de ver as coisas tomem o lugar de valores e princípios inculcados por conceitos culturais, familiares ou religiosos, sem a mínima preocupação com os reflexos que isso possa ter na interacção com os outros, ao sabor da filosofia "que se lixem os outros" que estiver na moda no momento: apologia do “umbigocentrismo”, do desprezo total pelos limites impostos pela consciência, e repetições verbais e mentais de falácias impraticáveis, pela mera busca da sensação de bem estar.

Theodor Adorno & Max Horkheimer chamaram a atenção para o fenómeno, no contexto do qual se fabrica, segundo eles, um estilo de conduta para os indivíduos que, submetidos à disciplina do racionalismo moderno, necessitam que se lhes diga como cuidar do seu corpo, fazer amigos e valorizar a sua personalidade. Para os autores, o capitalismo enseja o surgimento de movimentos de massa que condicionam as rotinas cotidianas, penetrando no modo como os indivíduos planeiam os seus compromissos, as pessoas sorriem para as outras, escolhem as palavras da conversa do dia a dia e estruturam a sua vida interior, numa tentativa de fazer de si mesmas "um aparelho eficiente e que corresponda, mesmo nos mais profundos impulsos instintivos, ao modelo apresentado pela indústria cultural".

A modernidade desintegrou as representações colectivas e simbolismos comuns que recomendavam a salvação do eu na fusão dos propósitos pessoais com os propósitos da comunidade. O resultado desse processo foi a criação de uma sociedade de indivíduos livres, mas, também, de um conjunto de problemas pessoais que tornou profundamente problemática essa liberdade.
Esta prática começou a vulgarizar-se através dos meios de comunicação, ao difundirem um saber de cunho paracientífico, caracterizado nos catecismos sobre como conduzir a vida, nas matérias sobre o potencial humano, nos testes de auto-conhecimento e nos desenhos de perfis psicológicos. As respostas para os problemas de identidade, os recursos para descobrir e explorar os segredos da alma, do corpo e do sexo, as fórmulas para ter sucesso na vida e relacionar-se com as pessoas foram-se tornando mercadoria de consumo de massa, conforme demonstra bastante bem o caso dos livros de auto-ajuda e de banalização primária de conceitos. E há para todos os gostos: desenvolver capacidades objectivas, conseguir sucesso nos negócios, comunicar com as pessoas, conservar o marido, obter auto-estima, saber envelhecer, vencer a depressão, viver em plenitude... E têm a ver, essencialmente, com as dificuldades, surgidas com a abstracção social ocorrida na modernidade, com que o homem comum do nosso tempo convive consigo próprio. Mas também com a explosão das referências morais, explorando a personalidade, superando a descrença em nós mesmos, e levar-nos a constituirmos-nos legitimamente como sujeitos de uma conduta na sociedade.

A base é sempre a mesma, como nos métodos religiosos do passado: a salvação é um produto absolutamente individual, que se alcança a partir da própria força do indivíduo. Porém, é necessária uma abordagem nova para o sentimento moderno de que, exactamente por vivermos numa sociedade igualitária, a ideia de que a nossa angústia íntima é desprovida de sentido, é intolerável, e tem a ver com a ansiedade gerada pela ideia de que somos todos iguais, e, portanto, cada um de nós é o único responsável pela respectiva infelicidade. Negando o mundo, negando as pressões sociais, as pressões económicas, as desigualdades gritantes...

Durkheim escreveu que os modernos resolveram correr o risco que advém da promoção de um método individual, subjectivo, que leva a moral a ser apenas o sentimento que cada um de nós tenha. A multiplicação desordenada da experiência e a restrição dos controles morais, provocam em muitos uma desorientação individual diante do mundo, e uma dificuldade em ordenar a vida por conta própria, e desencadeia uma série de questionamentos a que não poderemos responder sem uma ou outra forma de ajuda: "as sociedades que exigem do indivíduo um grau de especialização mais ou menos alto, determinam, pela sua própria natureza, que ele negligencie, ou deixe sem uso, uma grande quantidade de possibilidades existenciais, [conheça] vidas que ele não viverá, papéis que não exercerá, experiências que não chegará a viver e ocasiões que perderá". A isto, os manuais da cegueira respondem: "O indivíduo não deve preocupar-se em mudar a realidade, mas sim a experiência que tem dela ... porque a experiência pode ser manipulada interiormente e, portanto, autocontrolada".

O que existe nos escaparates pode ser, por si só, considerado um sintoma: ajuda pela hipnose, pela auto-hipnose, pela auto-análise e pela meditação; ajuda através da arte curativa dos chineses; auto-ajuda para vencer a ansiedade, a angústia, a dependência de drogas, a violência urbana, o stress e todas as formas de doenças sociais; auto-ajuda pelo tarot; todas as formas de psicoterapia centradas no corpo; todas as técnicas de auto-sobrevivência; auto-ajuda pela cura quântica ou através do Campo de Energia Humana, etc. Isto é o gosto comum?

Li, não sei quando, nem onde, uma entrevista do António Lobo Antunes, em que ele dizia que o papel, a função do escritor, é de fazer ver.

Escritores, precisam-se.


* Leiam Gilles Lipovetsky, "A ERA DO VAZIO: Ensaios Sobre o Individualismo Contemporâneo", "O CREPÚSCULO DO DEVER", "A FELICIDADE PARADOXAL". Tudo à venda na FNAC.

* Leiam "4 ARGUMENTOS PARA ACABAR COM A TELEVISÃO", de Jerry Mander. Ainda há pouco tempo o comprei, pela 4ª vez, na Ler Devagar.

* Frequentem: "Literatura de auto-ajuda e modos de subjetivação na cultura de massa contemporânea", de Francisco Rüdiger, em http://www.ufpe.br/eso/revista6/rudiger.html
e
http://inquilinosdoalem.blogspot.com/2007/10/literatura-de-auto-ajuda.html

* Abram os olhos.

* Sejam felizes.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Do conhecimento inútil I

A invectiva: ó fulano (não vou começar a identificar personagens, sobretudo se estiverem no poder, forem inspectores do fisco, psiquiatras ou mecânicos de automóveis, a diferentes níveis de perigosidade e de sentido de humor) ó fulano, dizia eu, você, que tem o maior conhecimento inútil que eu conheça, diga-me lá por que é que..., será que é para levar a sério? Será para ofender? Ou é simplesmente inveja?

Eu acho que o conhecimento inútil é um ramo abastardado da ciência, da memória, da cusquice, ou de todos eles em conjunto. E é provável que se desenvolva por geração espontânea, como as nuvens de condensação vertical e muito localizadas, provenientes do arrefecimento do ar húmido que se eleva na atmosfera. Aparecem muito depressa, muitas vezes no litoral, sobre uma baía, mas raramente precipitam.
Quando não se sabia por que chovia, faiscava ou trovejava, o pessoal temia que o céu lhe caísse na cabeça, e refugiou-se nas cavernas. Ao primeiro tremor de terra, o tecto (da caverna) caiu-lhes em cima e eles começaram a perceber: é conhecimento de experiência feito. Sentido na pele. Empírico.

Para que serve distinguir umas nuvens das outras? Acho que é bom de ver: para saber que roupa vestir quando se sai de casa. Se forem uns cumulusnimbos, altos, multiformes, com zonas cinzento escuro, o mais provável é vir trovoada e bátegas de água. Se forem uns cirrozitos, só provocam sombra, chateiam que estiver na praia, e fica por aí.
A direcção do vento também traz informações fundamentais: se estiver de norte e as nuvens estiverem a sul, podemos sair de corpinho bem feito, que quem leva com a chuva é o pessoal de Sintra, e arredores. Como sempre, aliás. Já a orientação de sul, dizem as estatísticas e a sabedoria milenar dos pescadores que é chuva garantida. Quem viver no litoral, basta olhar para o estacionamento dos barcos de pesca. Se estiverem todos em terra, é porque vem borrasca. Ou porque não vai haver desembarque de produtos ilícitos ao largo (para quem serve, é bom de saber que pode haver carência e os preços de mercado vão disparar).
Quando os carros de patrulha da GNR (ou da PSP) estão todos no estacionamento da esquadra, também pode ser sinal de chuva. Ou porque a vila está cheia de turistas, que podem fazer o que quiserem, portanto não vale a pena por o nariz de fora só para arranjar sarilhos.

O conhecimento inútil não conhece limites. Tive um cunhado (apesar de, ao que me disseram, os cunhados serem para toda a vida, ao contrário das mulhers/esposas) que conhecia todas as rotas aéreas e respectivos horários, em todos os aeroportos europeus: nem que fosse a Baku, passando por Esmirna e Tunis, para chegar de Frankfurt a Lisboa, ele não ficava mais de uma hora em trânsito: é preciso é andar. Nem que seja para trás. Eu também já fui do Rio para Frankfurt, em voo nocturno, para depois apanhar outro voo de 3 ou 4 horas para Lisboa, só para abichar um upgrade para executiva. Daqui se depreende que o conhecimento inútil só o é para os outros, porque a nós, serve-nos à perfeição. Há quem conheça a distribuição dos lugares num avião pelo modelo do dito: importante para quem mede mais de um metro e oitenta.
O conhecimento inútil é bom para resistirmos à chicoespertice dos outros. Mas é mau no que toca a gestão de conflitos: o chicoesperto não gosta que se lhe destape a careca e pode reagir de forma intempestiva. Lá se vão os brandos costumes. Daqui se infere que o conhecimento inútil não é universal, nem incita à diplomacia. É bom ter noções de artes marciais. Quem levanta cabelo tem de saber que as posições são para levar até ao fim, seja com um(a) abusador(a), um polícia ou um comerciante. E é bom conhecer os delitos que não acarretam prisão preventiva, para poder resistir legitimamente ao abuso da autoridade: uma vez trancafiados, abusivamente, numa cela do governo civil, mais vale relaxar e esperar pela soltura no dia seguinte. Quem nunca leu a constituição da república portuguesa não sabe que o direito de resistência à autoridade aí está consignado. É uma questão de boa prática democrática.

Mas, perguntarão alguns, o conhecimento inútil é compatível com a chicospertice? Raramente o é, já que se trata de uma arma de defesa e não de arremesso. Esta noção é muito importante na medida em que, muitas vezes, o conhecimento inútil é confundido com cagança, pesporrência, ou até, teimosia.

As mesmas causas produzindo, muitas vezes, os mesmos efeitos, uma boa base de dados permite elaborar e especular com algum fundamento, e reduz fortemente a ansiedade. Não confundir, como acontece muitas vezes, com adivinhação. Se bem que eu ache que as boas pitonisas e outros cartomantes têm, obrigatoriamente, de ter algum jeitinho destes para juntar factos e malabarar* com eles. Psicanalistas, também. É tudo uma questão de narrativa. Quem quiser contar uma grande mentira, tem de conhecer muitos factos. Ou a mentira não terá bases suficientes para ser credível. Ora, mentira que não seja credível, não é uma mentira, em bom rigor lexical, mas sim uma tentativa patética de enganar alguém.

Hei-de voltar ao assunto. Interpretem isto como promessa, ou ameaça, à escolha...


* procurei a palavra em vários dicionários, e, qual não é o meu espanto, não encontrei. Mas não é óbvio? Se um prestidigitador prestidigita, porque é que um malabarista não malabara? Em francês, está na cara: un jongleur, jongle! Se bem que a palavra portuguesa e a francesa correspondam exactamente à mesma coisa, a francesa é muito menos ofensiva. Dependendo de quem se trate, pode ser, até, apologética.

sábado, 19 de setembro de 2009

Verão II

O clima tem destes desencontros com o calendário: depois da fuga dos bárbaros*, o verão regressa com dias de calmaria saariana e temperaturas primaveris. Preenchidas as depressões, o vento mudou-se para outras latitudes e a praia apetece. Pelo menos, a esplanada, que é areia free. Mesmo assim, há uns indefectíveis, fóbicos de ajuntamentos, que desafiam algumas leis do universo, só para terem o quinhão de oxigénio só para eles. Dos outros não reza a história. Gente feliz não desperta curiosidade. Sem desequilíbrios e insatisfações não há motivações. Sem motivação, não há acção. É o que nos ensina a ficção. Rima e é verdade.

Este verão, os portugueses descobriram que o litoral se está a esboroar e que as falésias não são eternas. Nunca foram. Não está na ordem natural das coisas. Mas este tipo de igno
rância militante só indica que o portuga é aventureiro e desafia constantemente a gravidade. O bom senso, também. Quem gosta de gente certinha? Mas desafia-os de uma forma dissimulada, subreptícia, sonsa, até, que isto são muitos anos de cristianismo mesclado de laivos islamitas: quem não quer o melhor de dois mundos? "Faz o que eu digo, mas não faças o que eu faço", sabendo de antemão que é para caminhos ínvios que tal sabedoria nos leva. Orgulhosos, não gostamos de caminhos trilhados, fazendo jus aos versos de Neruda, cantados por Juan Manuel Serrat:

"Todo pasa y todo queda
Pero lo nuestro es pasar
Pasar haciendo camino
Camino sobre la mar
Nunca perseguí la gloria

Ni dejar la memoria
De los hombres mi canción
Yo amo los mundos sutiles
Ingrávidos y gentiles
Como pompas de jabón
Me gusta verlos pintarse
De Sol y grana volar
Bajo el cielo azul temblar
Subitamente y quebrarse

Nunca perseguí la gloria
Caminante son tus huellas el camino y nada más
Caminante no hay camino, se hace camino al andar
Al andar, se hace camino, y al volver la vista atrás
Se ve la senda que nunca se ha de volver a pisar
Caminante no hay camino, sino estelas en la mar (...)"

Nas palavras de outro "poeta": ... segura e firme não está nenhuma pedra. (Saramago, A Jangada de Pedra, pág. 12)

* povos no norte e do leste que não foram romanizados. Muito menos islamizados.